Colapso
Acorda cedo
Café pela metade
O mesmo caminho
A mesma cidade
O ônibus passa
O relógio morde
O corpo obedece
A alma discorde
O almoço é curto
A noite é estudo
O futuro promete
Mas cobra por tudo
Amanhã
Reinicia o processo
Mais um degrau
No mesmo excesso
Minhas vontades
Viraram compromissos
Entre uma conta
E alguns sacrifícios
Até o descanso
Tem hora marcada
A vida espremida
Na próxima jornada
A cidade pulsa
Mas ninguém percebe
A beleza grita
E a pressa não ouve
Eu já disse antes
Eu corro para alcançar o mundo
Mas o mundo aprendeu a correr
Com a urgência de quem foge
A velocidade do mundo
É a nossa paralisia
Quanto mais tudo se move
Menos eu encontro saída
Colapso
Quando tudo pede mais
Colapso
Quando o corpo fica para trás
Colapso
No excesso de seguir
Colapso
Quando correr é desistir
As telas chamam
Os prazos vencem
As metas sobem
Os dias descem
Tudo é urgente
Tudo é agora
A mente chega
Depois da hora
Eu marco o lazer
Como quem marca uma consulta
Meu desejo entra na fila
E a minha presença oculta
Apreciar virou luxo
Respirar virou atraso
E estar vivo, de repente
É não caber no próprio prazo
Eu já disse antes
Eu corro para alcançar o mundo
Mas o mundo aprendeu a correr
Com a urgência de quem foge
A velocidade do mundo
É a nossa paralisia
Quanto mais tudo se move
Menos eu encontro saída
Colapso
Quando tudo pede mais
Colapso
Quando o corpo fica para trás
Colapso
No excesso de seguir
Colapso
Quando correr é desistir
Mais rápido
Mais alto
Mais forte
Mais perto
Mais cedo
Mais tarde
Mais certo
Mais morto
Mais metas
Mais telas
Mais vozes
Mais nós
Mais tudo
Mais nada
Mais mundo
Menos nós
Eu já disse antes
Eu corro para alcançar o mundo
Mas o mundo aprendeu a correr
E eu desaprendi a me mover
A velocidade do mundo
É a nossa paralisia
Quanto mais tudo se move
Menos eu encontro saída
Colapso
Quando tudo pede mais
Colapso
Quando o corpo fica para trás
Colapso
No excesso de seguir
Colapso
Quando correr é desistir
No fim da pressa
Não há chegada
Só uma vida
Toda atrasada
A canção "Colapso" parte de uma frase que vira o coração do refrão: "a velocidade do mundo é a nossa paralisia". Ela fala de um cotidiano que virou trilho: acordar cedo, o mesmo caminho, o relógio que morde, o corpo que obedece enquanto a alma discorda. Aos poucos, as vontades viram compromissos, até o descanso ganha hora marcada, e o futuro promete tudo, mas cobra por tudo. "Amanhã, reinicia o processo": a exaustão não chega como explosão, e sim como engrenagem que repete.
O retrato não é sobre tecnologia ou pressa em si, mas sobre o que a pressa nos rouba: a presença. Numa cidade que pulsa de beleza, ninguém mais repara: apreciar virou luxo, respirar virou atraso, estar vivo é não caber no próprio prazo. É aqui que a música reencontra a frase que atravessa o EP, "eu corro para alcançar o mundo, mas o mundo aprendeu a correr", só que agora, no colapso, ela termina em "e eu desaprendi a me mover". No fim da pressa não há chegada: só uma vida toda atrasada. Porque não fomos feitos apenas para correr, mas desaprendemos a parar.